História do território
Caminho das Árvores: a história por trás da transformação das Alamedas das Catabas e dos Sombreiros
Para entender por que novas torres estão surgindo entre as casas dessas duas alamedas, precisamos voltar ao momento em que Salvador começou a construir um novo centro.
Por MSD Negócios Imobiliários
Quem observa as Alamedas das Catabas e dos Sombreiros encontra uma paisagem em transição. Entre casas e ruas arborizadas, aparecem tapumes, guindastes e novos edifícios. Diferentes empreendimentos ocupam um território pequeno, em estágios distintos de desenvolvimento.
O que poderia parecer uma sequência de obras isoladas começa a revelar uma transformação maior: duas alamedas originalmente residenciais estão mudando de escala.
Mas essa história não começa nos canteiros de obras. Para compreender o que acontece aqui, é preciso entender por que alguém decidiu construir casas nesse lugar cerca de cinquenta anos atrás — e como Salvador cresceu ao redor delas.
Uma história que o Horto Florestal já viveu
Antes de olhar para o Caminho das Árvores, vale observar outro bairro de Salvador.
O Horto Florestal é hoje associado a edifícios de alto padrão e grandes condomínios. Sua origem, porém, remonta à Fazenda Misericórdia, comprada em 1940 pelo engenheiro suíço Otto Billian.
Foi ali que Billian construiu a Chácara Suíça, onde vivia com sua família. Nas áreas remanescentes, implantou o Loteamento Parque Florestal, que permaneceu predominantemente horizontal durante décadas.
A transformação desse território ganhou um símbolo no próprio terreno da antiga residência. A Odebrecht implantou ali o Condomínio Chácara Suíça, ocupando uma área de 17 mil metros quadrados. As duas torres receberam os nomes de Lucy e Otto Billian, preservando uma referência aos antigos proprietários.
A propriedade ligada à origem do bairro passou, assim, a representar também uma nova fase de sua ocupação.
No Caminho das Árvores, outra residência familiar ajuda a contar uma transformação semelhante: a casa de Norberto Odebrecht, na Alameda das Catabas, em cujo terreno está o Legacy. A correlação entre esses lugares é o ponto de partida para entender a história das alamedas.
Quando Salvador mudou de direção
Antes da década de 1970, as principais funções econômicas e administrativas de Salvador estavam concentradas no centro histórico.
Na Cidade Baixa ficavam o porto, os bancos e boa parte das atividades financeiras. Na Cidade Alta estavam repartições públicas, hotéis, cinemas e o comércio mais sofisticado. As duas áreas funcionavam como partes de um mesmo centro.
Bairros como Barra, Rio Vermelho e Ribeira já existiam, mas a cidade ainda se organizava, essencialmente, em torno dessa centralidade.
Em 1971, Antônio Carlos Magalhães assumiu o Governo da Bahia e se tornou o principal agente público da mudança de seu vetor de crescimento. A conclusão de um novo sistema viário, formado pelas avenidas ACM, Tancredo Neves e Paralela, conectou áreas até então afastadas daquela dinâmica urbana.
Ao mesmo tempo, a estrutura administrativa estadual foi transferida do centro histórico para uma área ainda pouco ocupada, às margens da Paralela. Surgia o Centro Administrativo da Bahia, o CAB.
As avenidas criavam a conexão. O CAB estabelecia uma âncora. Salvador começava a organizar suas atividades em outra direção.
Um loteamento ao lado do novo centro
É nesse contexto que entra a Odebrecht.
Em meados da década de 1970, o grupo desenvolveu o Loteamento Caminho das Árvores. Dentro daquele território e nas adjacências, começaram a se concentrar equipamentos que ajudariam a formar uma nova centralidade de Salvador.
A Rodoviária, em 1974. O Shopping Iguatemi, em 1975. O Empresarial Iguatemi, em 1976.
Mais do que novos edifícios, esses marcos reuniam funções diferentes em uma mesma região: circulação, comércio, trabalho e serviços. Um novo centro estava nascendo.
1974
Rodoviária
1975
Shopping Iguatemi
1976
Empresarial Iguatemi
O conceito residencial do Caminho das Árvores se apoiava nessa proximidade. A proposta era criar um bairro planejado, arborizado e tranquilo, próximo dos novos centros comerciais e de lazer, mas com áreas de casas protegidas da grande circulação.
Essa intenção aparecia até nos nomes das vias: Espatódeas, Sombreiros, Catabas, Eucaliptos, Framboesas.
Caminho das Árvores não era apenas um nome.
Era uma síntese do lugar que se pretendia construir.
Norberto Odebrecht escolheu viver nessa ideia
Há uma decisão pessoal que aproxima essa história urbana de um endereço específico.
Norberto Odebrecht não estava apenas à frente do grupo que criou o loteamento. Ele decidiu morar ali, com sua família, na Alameda das Catabas.
O terreno escolhido para sua residência é o mesmo que recebe o Legacy.
Essa escolha dá outra dimensão à história do empreendimento. Antes de se tornar parte de uma nova etapa da verticalização, o endereço já estava ligado à própria concepção residencial do Caminho das Árvores.
Ele não estava apenas construindo uma ideia para os outros.
Ele escolheu viver nela.
Primeiro, mudou o entorno
Durante bastante tempo, o Caminho das Árvores preservou boa parte de sua configuração residencial: casas, alamedas arborizadas e baixa densidade.
Ao redor, porém, o novo centro se consolidava.
A Avenida Tancredo Neves passou a reunir empresas, bancos e escritórios. De um lado, intensificava-se a atividade econômica. Do outro, às vezes separada por poucos metros, permanecia uma paisagem de casas em terrenos grandes.
Essa convivência não significava que a região estivesse parada.
Na Alameda das Espatódeas, as casas foram cedendo espaço ao comércio, até a rua se tornar um polo de decoração. O Aquarius também ganhou outra escala, com prédios, comércio, escolas e mais circulação.
Em 2006, chegou o Hospital da Bahia. Em 2007, o Salvador Shopping. A Tancredo Neves, por sua vez, continuou crescendo verticalmente.
O loteamento criado para estar perto do novo centro passou a ser cercado por ele. A transformação avançava ao redor das áreas que ainda preservavam parte da paisagem original.
Quando as obras passam a contar uma história maior
Com esse contexto, os canteiros de Catabas e Sombreiros deixam de parecer acontecimentos desconectados.
O Legacy é especialmente simbólico pelo terreno que ocupa. A propriedade escolhida por Norberto Odebrecht para viver dentro do loteamento criado por seu grupo passa a receber um edifício associado a uma nova fase do bairro.
Mas a transformação não se resume a ele.
Diferentes empreendimentos, com propostas e estágios distintos, estão presentes nas duas alamedas. É essa concentração que permite olhar além de cada lançamento e perceber uma mudança no território.
Um empreendimento pode ser analisado individualmente: sua arquitetura, suas plantas e sua localização. Quando vários projetos passam a ocupar duas alamedas conectadas, surge outra pergunta:
O que esse conjunto revela sobre o lugar?
Uma história que ainda está sendo escrita
No Horto Florestal, os edifícios já fazem parte da imagem consolidada do bairro. Em Catabas e Sombreiros, a convivência entre casas, árvores e novas construções permite observar a transformação enquanto ela acontece.
É esse momento que torna o território particularmente interessante de documentar.
Mais adiante, talvez seja difícil imaginar essas ruas sem a presença dos edifícios que hoje começam a compor sua paisagem. Por enquanto, o que existia antes e o que está surgindo ainda podem ser vistos lado a lado.
Entender esse processo não exige classificá-lo imediatamente como bom ou ruim. Exige reconhecer a história que o tornou possível.
A mudança de direção de Salvador. A formação de uma nova centralidade. A implantação do Caminho das Árvores. A escolha de Norberto pela Catabas. E o crescimento da cidade ao redor das alamedas.